10 – Verdadeiro Rosto

Verdadeiro Rosto

*Baseado na música: Reset the Future

Obs: ligue a música antes de começar a ler ;)

Não se ouvia mais nenhum grito nas ruas. Era como se, na medida em que o azul do céu clareasse, as pessoas voltassem a ser quem eram. Um observador mais atento diria que as pessoas apenas voltaram para suas máscaras habituais, deixando seus verdadeiros rostos perdidos naquela noite insana.

A maioria se esqueceria de tudo, enquanto a grande mídia inventaria mentiras costumeiras e convenientes.

Porém, uma minoria vislumbrou seu verdadeiro rosto e isso não é algo fácil de esquecer. Essas pessoas se tornariam páreas para sempre.

E duas pessoas, apenas duas, sabiam agora o motivo de toda aquela loucura, ou a falta de motivo.

Dante esperou que o corpo de Filipo se tornasse pó antes de se voltar para Ricardo, que tinha assistido a tudo sentado no seu canto. O senhor estendeu a mão para sua cria:

– Levante-se, vamos caminhar – disse Dante.

– Mas o céu…!

Dante apenas olhou e Ricardo sabia que não fazia diferença entre a aurora e seu mestre, ambos seriam letais se ele nada fizesse. Resolveu levantar e sair com Dante pelas ruas vandalizadas. Ainda podiam ver corpos estendidos no chão. Alguns mortos de fato, outros apenas desacordados.

Dante começou a rir. Não com o deboche habitual, mas como se tivesse visto algo realmente engraçado.

– Sabe, Ricardo, no fundo todos estavam certos! Eu sou um grande bastardo filho da puta! Fiz tudo aquilo que esperavam de mim, olhe em volta!

Ricardo via o caos para onde olhava e sabia que aquela era a obra-prima de seu mestre.

– Sabe o que é mais irônico? Eu nunca quis nada disso, eu era um menino doce.

Nesse instante, Ricardo, mesmo olhando com atenção, não sabia se Dante estava rindo ou chorando. Foi quando seu mestre começou a tirar a camisa.

– Você já sentiu que não podia mais ser quem você é? Eu simplesmente não suporto mais ficar perto de mim!

Dante jogou sua camisa no chão.

– Pela primeira vez eu não sei o que fazer a seguir, como se fosse livre pela primeira vez. Alguém espera algo de você? – e finalmente Dante parecia falar com seu discípulo.

Ricardo olhou para o seu passado e viu a si mesmo como um “seguidor de regras”, alguém de quem todos esperavam o correto, esperavam lealdade. E, como um cachorrinho, ele fez exatamente o que todos esperavam dele.

E, pela primeira vez, ele teve vontade de falar algo para Dante:

– Obrigado.

Aquilo foi inesperado para o vampiro mais velho.

– Não estou agradecendo pela imortalidade, pela maldição ou pela insanidade. Agradeço pela liberdade que ganhei, de ser eu mesmo.

O azul escuro se tornava mais claro a cada momento e podia-se ver o arroxeado no horizonte.

– Não me agradeça, a liberdade é tanto uma benção quanto uma maldição. Apenas tome o futuro e o faça seu – disse Dante ainda caminhando.

Ricardo não conseguia mais ver a vida como antes. Ele presenciou a queda de muitos naquela noite… Carmo, Alice, Rafael, Filipo e… Dante. Sim, ele via seu mestre, seminu, caminhando entre os corpos estendidos, provas materiais da sua loucura e da sua vingança. E sabia que, agora, Dante não tinha mais nada.

Depois de ver tudo isso, Ricardo percebeu que sua vida era uma mentira sufocante, onde ele tinha buscado calcular cada passo. E viu, com pesar, que algo em que tinha fé extrema, nunca existiu, a verdade.

A maior mentira que ele já acreditou foi que existia uma verdade e que se deveria agir de acordo com ela.

Cada um dos personagens dessa tragédia agiu com a sua vontade, seja pelo amor, pelo rancor, pelo dever ou pelo prazer, porém, Ricardo não poderia dizer que existia apenas uma realidade, uma verdade naquilo tudo.

– Ricardo!

Dante gritava agachado do lado de um corpo feminino.

– Descobri como posso ser invencível!

A aurora despontava no horizonte em tons belos de vermelho, laranja e branco. Uma verdadeira aurora vermelha.

Dante se voltou para o sol, enquanto Ricardo se escondia em uma garagem.

Mas antes do beijo mortal do sol, o mestre ainda conseguiu dar um último conselho a sua cria:

– Tome a vida com suas próprias mãos e faça dessa a sua vez, é a sua vida.

Ricardo ouvia a voz de Dante ecoando pela garagem escura onde se escondeu, porém perdeu, com isso, a visão de seu mestre sendo abraçado generosamente pelo sol.

Ele agora estava sozinho, perdido, morto, amaldiçoado, fora da sociedade, fora de sua família, um renegado… E nunca se sentira mais livre e feliz!

Tudo voltaria ao normal. A cidade, os jogos, a mentira. Porém uma pessoa jamais seria a mesma…

 

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