03 – Carmo está Morto

Carmo está morto

* Baseado na música: Instinct

Obs: ligue a música antes de começar a ler ;)

-Carmo está morto, mestre.

Ricardo mantinha o olhar baixo ao dar a notícia para Dante.

-Até que Filipo demorou para resolver isso! As coisas estão acontecendo finalmente – sorriu o mestre.

-Eu poderia até dizer que o senhor está feliz com a notícia – disse o lacaio assombrado.

-E estou. Meu plano está em andamento.

-Mas senhor, Carmo era seu servo mais leal!

-E?

-O senhor não tem nenhum remorso ou tristeza pelo que aconteceu? Dante, o mestre temido, olhou com severidade para Ricardo, seu lacaio.

-Vamos fazer uma coisa, sim? Um exercício que aprecio deveras. Vou tentar explicar algumas coisas e você vai fazer um esforço para entender e permanecer calado.

Ricardo se calou e temeu, viu que tinha irritado uma pessoa realmente perigosa. Dante e seu lacaio estavam em um de seus esconderijos decadentes e abandonados, cheios de lembranças e mofo. O mestre gostava de invadir casas, se alimentar de seus moradores e habitar o lugar por algum tempo. Porém, fazia questão de manter tudo onde os pregressos ocupantes tinham deixado e ver os móveis, objetos pessoais, artefatos e brinquedos (principalmente eles) se deteriorarem. Essa era a sua forma de notar o tempo passando. Dante era velho demais, e cada dia se tornava mais difícil distinguir os anos.

Naquela noite o ar era ainda mais decadente que o normal, a luz da rua entrava pela janela e iluminava exatamente onde Dante estava sentado, numa cama de criança.

-Por quê você acha que existimos, Ricardo?

O lacaio não respondeu, sabia que aquela era um pergunta retórica .

-Não é possível viver tantos anos quanto eu sem responder a essa pergunta. Humanos tem um tempo muito curto para ver o suficiente – disse tocando a cama com alguns tapinhas.

Ele parecia ainda mais estranho sentado na pequena cama infantil com seus animais de pelúcia mofados e sujos de sangue velho. Ricardo tremia ao ver aquele coelhinho azul sem cabeça e ursinhos de olhares vidrados, admirando o nada e o pó. Dante sempre mexia neles para se acalmar.

-Estou em uma guerra com Filipo que já atravessou muitas gerações. Ele é um maldito assassino manipulador, capaz de tudo para atingir o seu objetivo. E vou dizer isso só para que você entenda, EU sou o vilão! Não tenho lágrimas por Carmo, não tenho mais lágrimas por ninguém. Já fizemos tanto um contra o outro, eu e Filipo, que isso só vai acabar quando um dos dois tiver o coração do outro nas mãos. É uma guerra. Já houveram muitas baixas e vão existir ainda mais, se tudo der certo! – olhando para o nada Dante ainda completou – Já começou.

A essa altura, Ricardo tinha dúvidas se seu mestre continuava falando com ele.

-Mas senhor, existe um motivo maior para estarmos aqui?

-Você não ouviu NADA? Você está me ouvindo? Não existe razão! Não existe certeza! Esse é o motivo de ter escolhido a guerra, tolo mortal! Eu construi o meu mundo através do vazio que existe aqui dentro, em cima da meu ódio, a razão do meu caminho – disse Dante se alterando.

-Você é um louco!

Ricardo estava com muito medo, nunca tinha visto seu mestre daquela forma. Olhava para os lados sem parar, como se para encontrar uma saída que ele sabia que não existia.

-E você só foi notar agora? Hahaha…

A risada de Dante gelou instantaneamente o sangue ainda quente de Ricardo, que tentou correr. Em vão, pois antes mesmo que ele pudesse fazer algo o vampiro já estava na porta.

-Você é tão certinho, lacaio. Faz tudo da maneira correta e cortês, tudo que esperam de uma pessoa como você! E agora que sabe que não existe nenhum motivo para isso, como se sente? Quanto tempo gastou tentando agradar a todos?

Ricardo se afastou sem responder, quando Dante estava em suas costas, em um piscar de olhos.

-Sempre pensei no que fazer com você, sabia? Tão deliciosamente infiltrado… Eu sinto o cheiro do sangue contaminado de Filipo em você desde o primeiro dia!

Ricardo tremia com o sussurro de Dante em sua orelha.

-Você vai me matar?

A presa não conseguia mais sentir o seu caçador nas suas costas, ele estava escondido na escuridão agora.

-Você acha que eu sou que tipo de criatura? Acha que eu sou obtuso como Filipo? Mas, me diga você agora, como se sente com o sangue de Carmo em suas mãos?

Ricardo ainda tinha alguma consciência de seus atos e notou que não queria ter se envolvido em nada disso. Olhou para suas mãos e se sentiu sujo, sentia um remorso dilacerante.

-Pobre tolo, uma mosquinha presa em uma teia muito maior que ela. Sofrendo por algum outro inseto que pereceu da mesma forma, chega a ser patético.

-Eu não quero morrer!

O pobre humano tremia sem saber qual seria o seu futuro.

-Todos nós estamos perdidos, Ricardo. Perdidos e tentando achar uma forma de fugir de nós mesmos, do nosso instinto. Você quer viver? Mostre-me sua força então, LUTE COMIGO!

-Mas é impossível, você é…

-LUTE PELA SUA VIDA!

Ricardo nem podia ver onde Dante estava, a escuridão protegia o vampiro como se fosse sua amante, sua voz ecoava no pequeno quarto e mudava de posição a cada frase. Porém, a vontade de viver do frágil humano era mais forte que a sua já pouca racionalidade. Então se colocou em posição de defesa, e atacou a escuridão.

Ele golpeou o vazio, mas continuou atacando.

Sentiu então seu braço ser aparado e Dante saiu da escuridão sorrindo.

-Assim que eu gosto! Está sentindo a raiva, Ricardo?

Antes que o rapaz pudesse responder o velho vampiro cravou seus dentes no braço direito dele, aquele que tinha aparado na tentativa vã de liberdade.

Ricardo caiu no chão sem vida.

Então Dante se abaixou no chão sujo, apoiando o joelho do lado do corpo inerte do lacaio, fez um corte com seus dentes no antebraço e ofereceu do seu sangue para fazer o impossível, reviver alguém.

-Adeus alma infame, bem-vinda fria e bela morte.

Ricardo tremeu e Dante se afastou para aproveitar o espetáculo, ele adorava ver o renascer de seus filhos. O novo vampiro parecia sentir muita dor e se contorcia no chão até abrir finalmente os olhos.

O mais velho se aproximou de seu filho recém-nascido e deu um sorriso macabro.

-E então, vê agora?

-Agora sim eu vejo – disse Ricardo, com o olhar louco como de seu pai.

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