01 – O Jogo

O jogo

*Baseado na música: Thrust in to this Game

Obs: ligue a música antes de começar a ler 😉

Carmo entrou em casa arfando. Tinha pouco tempo para levar suas coisas embora e sumir de vez daquela cidade. Mudar de país era uma boa opção também.

A luz da lua entrava branda pela janela, o suficiente para iluminar seus passos e por isso mesmo, acender a luz seria no mínimo imprudente. Chamaria atenção desnecessária.

-Com medo de algo, Carmo?

Ele olhou em volta, tinha certeza que estava sozinho até aquele momento. Precisava estar sozinho, aquela voz revelava muito mais que apenas uma presença, mas uma sentença de morte.

-Não, senhor.

-Ah, então não vai se incomodar que eu acenda a luz, não é?

-Claro que não, padrinho.

Mesmo vendo seu padrinho todas as noites por longos vinte anos, Carmo ainda se impressionava com a altivez dele. Um olhar capaz de trazer abaixo até o mais seguro dos homens.

Com a luz da cômoda acesa e a meia-luz da lua o ambiente parecia ainda mais ameaçador.

-Não vai abaixar sua cabeça, Carmo? Para que eu possa te abençoar.

-Claro, claro. Me desculpe. – O medo na voz de Carmo era evidente e perturbador.

Mesmo assim se abaixou em frente a Filipo, sem saber se o golpe seria naquele momento ou depois. Um pensamento macabro percorreu sua mente, que talvez fosse melhor acabarem logo com isso, a sofrer com a dúvida da sua punição por mais 10 minutos.

-Seja abençoado.

-Obrigado, padrinho.

-Quer dizer que você ia fugir?

-Eu? Não faria uma coisa…

-Não subestime a minha inteligência, por favor.

Carmo abaixou a cabeça e decidiu não tentar fugir daquela situação e  enfrentar como um homem pela última vez.

-Eu não quero morrer, Filipo. Por isso ia fugir.

-E eu seria o seu algoz?

-Agora você não subestime a minha inteligência. Se você está aqui pessoalmente, a coisa está ainda pior pro meu lado que eu imaginei.

-Isso é verdade. Eu não me deslocaria sozinho se não fosse uma coisa importante..

Filipo permanecia sentado em uma cadeira ao lado da cama de Carmo, que decidiu sentar-se também.

-E sabe porque isso é importante pra mim? Eu achei que não me preocuparia com a sua lealdade. Não com a sua. Mantive você próximo ao meu peito por muito tempo.

-Eu estava lá colocado, desde o começo. Tinha uma missão, padrinho.

-Não sou mais seu padrinho, Carmo. Não precisa mais me chamar assim.

-Certo, verdade.

Carmo sentiu o peso do costume em suas costas.

-Sabe, de princípio eu tinha um pressentimento que não poderia confiar em você, e o mantive por perto por isso mesmo. Você conhece o ditado tanto quanto eu.

-Sim, conheço.

-E com o tempo eu me esqueci, ou me fiz esquecer, desse primeiro pressentimento. Achei que você era mais que apenas um rato sujo.

-Eu não sou um rato sujo – disse Carmo sem emoção –  Fiz o que me mandaram. Cumpri ordens, apenas.

Filipo resolveu se levantar e andar pelo quarto enquanto falava.

-Sabe, Carmo, tem uma coisa que você precisa saber sobre lealdade. Nessa vida que levamos tudo é um jogo. E acho que você ainda não entendeu.

-Devemos a lealdade ao nosso mestre até o final, isso que eu sei.

O mais velho dos dois quase não conseguiu conter o riso, Filipo não se divertia com uma frase há muitos anos.

-Eu disse que você não tinha entendido. A nossa lealdade está do lado de quem vai ganhar, Carmo. Só isso. Olhe para você agora, está a poucos minutos de uma morte terrível e porquê? Por quem? Ninguém está aqui para compartilhar da sua dor. Nem para te amparar.

-Eu tenho minha consciência ainda, Filipo. Isso você não vai me tirar!

-Consciência? Você tem certeza de ter estado lá do meu lado todos esses anos? Você matou pessoas inocentes para ter a minha confiança. Acha mesmo que eu acredito que você tenha alguma consciência? Seu maldito mestre não vale mais do que eu, por ter te mandado me vigiar. Você foi apenas um bom cão.

-Foi tudo para um bem maior…

-Claro que sim, você mentiu, matou e traiu por um bem maior. Sua alma foi vendida a um preço irrisório e você nem notou. Quase tenho dó de te matar.

-Pelo menos eu sei de uma coisa, todas as informações que eu passei servirão para te derrubar definitivamente!

-Acho que deveria ter sido um comediante ao invés de um espião, Carmo. Eu não vou cair. Vou permanecer aqui até quando quiser, e todo o seu esforço terá sido em vão. Ou você acha que eu sei da sua traição como? Eu tenho cães leais assim como você ao lado de seu mestre.

-Não é possível…

Toda a fé de Carmo parecia desvanecer de seu olhar.

-As pessoas que me colocaram onde estou vão continuar do meu lado enquanto eu fizer a minha parte no jogo. E pessoas como você serão esmagadas no processo. Como agora. Somos peões aqui, jogando o mesmo jogo, pena que você não entendeu.

Filipo chegou até Carmo com uma velocidade que apenas um imortal poderia, e sugou todo o seu sangue de uma vez.

-Boa sorte do outro lado, Carmo – disse Filipo, abandonando o corpo sem vida no chão.


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