02 – O Motoqueiro

O motoqueiro

*Baseado na música: The Ride

Obs: ligue a música antes de começar a ler 😉

O cair da noite na cidade é sempre bonito. As primeiras horas são marcadas pelo barulho alegre de copos brindando em algum happy hour e pelo som dos pneus apressados, indo para casa.

As grandes vias de acesso ficam lotadas de carros em alta velocidade. Carros cheios de ansiedade, saudade e solidão.

Entre todas as rodas que circulam na cidade nessa noite, apenas um homem não sente nada. Ele passou pela fase de se sentir queimando e agora estava apenas adormecido. E ele testava o quanto na maior avenida da cidade apressada.

Eram um homem, sua moto, seus pensamentos e o vento em seus cabelos.

O motoqueiro pensava na imagem que todos tinham dele. Alguns o viam como o homem mais corajoso que haviam conhecido, outros o mais tolo. Porém, todos o temiam.

Ele avançava seu primeiro sinal vermelho em alta velocidade, sem se importar com algum acidente. Nesse momento ele não se importava consigo, nem com os outros. Nada mais importava.

Ele olhava para as pessoas nos seus carros e tentava descobrir o que lhes era caro. As suas casas, carros, seus bens? Coisas ou pessoas que pensam possuir?

Há muito tempo o motoqueiro não se preocupava com nada disso. E agora, ele nem precisava pensar para pilotar, seu corpo sabia fazer isso sozinho.

Aos poucos ele se aproximava perigosamente de outros carros, causando pequenos acidentes.

Ele pensava se era um monstro ao fazer aquilo, mas se lembrou que o era muito antes daquela noite. Porém, ele havia acabado de perder aquilo que o mantinha de pé, e estava afundando. Naquele momento, ele sabia onde deveria ir e entrou na contra mão acelerando.

Lentamente ele fechou os olhos e desligou o motor.

Houve um instante de silêncio onde a glória  e a morte deram as mãos, instantes antes da colisão inevitável.

E assim, antes da queda, o segundo precioso onde ele pôde se perdoar por ser quem era. É nesse momento que ele vê que seu destino é apenas um nome a se esquecer, o dela.

A violência da batida estraçalhou vidro e ossos com voracidade, aproximando curiosos, parando o trânsito.

E mesmo depois de tudo o motoqueiro não consegue se esquecer. Mas agora ele sabe que aquela noite pertence a ele e não mais a teme.

Aos poucos ele se levanta e começa a se regenerar, causando terror nos que ali estavam.

Ele, o motoqueiro,  tem certeza agora que a vida não passa de uma coleção de segundos, e sabe que logo precisará de sangue para fazer tudo que pretende. Olha para a multidão e vê alimento caminhando e vê meios de alcançar seus objetivos.

Mas antes de começar sua chacina ele ainda murmura:

– Avisem ao demônio que estou em sua casa hoje e que a noite está apenas começando.

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