06 – Caminhantes noturnos

Caminhantes noturnos

* Baseado na música: Break me Out

Obs: ligue a música antes de começar a ler ;)

No cair da noite, aqueles que a habitam saem de suas tocas para tomar aquilo que lhes pertence. Sejam presas ou caçadores, ambos saem com gana nos olhos e ansiedade.

Um homem e uma mulher se encontrariam naquela mesma noite. A lua estava especialmente cheia, grande e avermelhada.

Alguém que olhasse demais para a lua como estava poderia pensar que, para tocá-la, bastava uma escada e brilho nos olhos.

E a eterna dança da sedução se iniciava em um bar escuro, esfumaçado e barulhento. A música alta de uma banda ao vivo se misturava ao som das bolas de bilhar e à conversa daqueles já um pouco mais alterados.

Alice se destacava por sua beleza meiga, traços finos, longos cabelos loiros e brilhantes olhos azuis. Seu olhar transmitia serenidade. Mas, não olhava para todos, apenas para ele.

Rafael era de uma beleza rústica, cabelos longos e castanhos, uma aura de segurança que jogava as mulheres no chão. Seus olhos castanhos eram envoltos em mistério, profundos e em muitas vezes ameaçadores. E seu corpo transmitia solidez e força.

Olhares trocados. Distância estratégica. Aproximação. Toque. Desejo.

Ambos sabiam o que tudo aquilo significava e não precisavam dizer nada.

O bar onde estavam tinha um segundo piso e foi para onde se dirigiram. Alice foi na frente convidando silenciosamente com o sorriso malicioso.

Aqueles degraus pareciam eternos para Rafael que se antecipou ao último, pegando a mulher pela cintura e a apoiando na parede ao lado.

Uma das mãos dele permanecia na cintura dela, a envolvendo, enquanto a outra estava na parede, mantendo uma pequena distância entre seus corpos. Alice olhou levemente para cima para ajustar os lábios a altura dos lábios dele.

Rafael não sentia respiração vindo dela, ao contrário da dele, já ofegante de excitação. Ele sabia, naquele momento, que se perderia no instante em que tocasse aqueles lábios frios como a madrugada e decidiu beijá-los mesmo assim.

O fogo que surgiu do toque e do atrito dos lábios era tamanho que parecia capaz de sobrepujar a morte. E por segundos, ou horas, eles pareceram apenas um ser.

Quem era presa ou caçador não importava mais e isso perturbou o mais forte dos dois, Alice.

A troca deles excedia os fluidos normais e ambos deram seu sangue e seu coração um para o outro.

E assim como começou o momento se foi, evanesceu em algum ponto da madrugada, deixando apenas duas mentes perturbadas.

Na noite seguinte Rafael estava no mesmo bar. Ele não perderia a chance de encontrá-la novamente e, como era esperado, ela chegou.

-Olá, mulher misteriosa. Ontem você saiu sem se despedir, nem mesmo disse o seu nome.

Alice respondeu com um sorriso sensual.

-E de que adianta que você saiba meu nome?

-Ora, assim eu poderia dar nome à mulher que vejo em meus sonhos.

O sorriso de Alice se foi, e ela ficou sem saber como reagir.

-Eu não posso ser a mulher dos sonhos de ninguém.

Ela já se preparava para ir embora quando Rafael a pegou pelo braço com gentileza. Alice não estava preparada para o toque e pela segunda vez ele notou a frieza em sua pele.

Por um segundo ela titubeou e percebeu que ele tinha notado. Esse pequeno espaço de tempo foi o suficiente para que ele a puxasse para si e colasse seu corpo com o dele. E disse bem baixinho em seu ouvido:

-Não me importa o que você é, e eu sei que esconde algo. Mas agora que eu te encontrei não vou deixá-la ir.

Eles se beijaram com um desejo ainda mais intenso que no dia anterior.

Ele de fato tinha sonhado repetidas vezes com ela, sem nunca saber quem era aquela mulher. E agora, a proximidade de seus corpos ainda parecia um sonho.

Em um lugar perdido, no limiar entre o sonho e a realidade, o belo casal divide um momento crucial.

Depois de várias noites juntos e ainda deitados, Rafael pergunta:

-Você vai me contar o seu segredo?

Alice desvia o olhar, para contemplar a parede. Ela não queria que esse momento chegasse.

-Olha pra mim, Alice. Eu sei que tem algo errado desde o primeiro dia.

Ela se virou para ele com sua beleza pálida.

-Naquele primeiro dia eu estava apenas caçando, Rafael. Buscava o seu sangue e nada mais.

-E o quê a fez voltar?

-Uma vontade imensa de te ver de novo. Eu não me sentia assim desde quando estava viva.

Ele sabia e esperava alguma revelação. Mas agora que a ouvia, não sabia como reagir.

-E agora, o que está pensando em fazer?

-Sinceramente? Eu queria esquecer o meu passado e esquecendo queria que isso pudesse apagá-lo. Para que eu pudesse apenas te amar, sem todo esse peso.

Rafael viu que a mulher dos seus sonhos estava realmente abalada.

-Alice, no quê seu passado nos impede de algo? Ele faz você ser quem é e eu te quero hoje, agora.

Rafael sabia o que dizer para deixar Alice sem fala. Ela sempre imaginou que certas coisas tinham passado e que ela não mais as teria. Amor, por exemplo.

Quando grande parte de sua alma está morta, como o amor pode florescer?

Mas agora, o destino tinha provado que ela estava enganada. O peito se comprimia sob o peso de seu sentimento como em uma menina adolescente. E um medo se abateu sobre ela.

-E você, Rafael, vai me abandonar agora?

-Não. Nem agora, nem nunca.

Aquele momento precisava de uma iniciativa para dissolver o peso da revelação. Já era quatro e meia da manhã, exatamente a hora em que Alice ia embora. O ponto seguro antes do amanhecer.

Os dois sabiam e Rafael estava se preparando para vê-la partir de sua cama mais uma vez, quando Alice o abraçou e se aninhou em seu peito forte. Ela ia dormir ali, e consequentemente deixar a sua vida nas mãos dele.

Por um momento ele tremeu. Entendia a responsabilidade que estava assumindo o quanto ela estava se abrindo, mas logo se acalmou.

Aquilo era o que ele sempre tinha sonhado.

Rafael não poderia ser chamado de calmo ou paciente. Por isso mesmo tinha aprendido a se defender muito cedo. Quando mais jovem já tinha sido temido por seu temperamento, mas principalmente, por seus punhos. Porém, depois de certa idade, descobriu que a maioria das coisas não podia ser resolvida dessa forma.

Mas naquele momento, todo o seu equilíbrio se foi ao ver Alice seduzindo outro homem.

A pobre vítima nem mesmo viu o momento em que foi arrastado para a rua pela camiseta. Rafael estava descontando toda a sua frustração no rosto do homem perdido, quando viu o olhar de desaprovação no rosto de sua amada e que ela estava indo embora.

Ainda com a adrenalina no sangue, ele correu atrás dela e a parou em uma rua escura.

-Você está louco? – perguntou Alice irritada.

-Eu! O que você estava fazendo com aquele cara?

-Aquela era a minha refeição! Você sabe muito bem disso.

-Eu sei, mas… precisa fazer daquele jeito?

-Rafael, quando você disse que me aceitava, sabia que isso ia acontecer um dia!

-Sim! Mas não na minha frente e…

-E você preferia o que? Saber, mas não ver? Preferia uma relação hipócrita onde você ia ficar imaginando em que noite eu sairia para caçar e sentir a mesma coisa que agora, mas sem ver?

-Não, eu preferia que…

-… que eu fosse humana? Era isso que você ia falar?

-Não, eu …

-Mas eu NÃO SOU HUMANA!

Alice virou de costas para Rafael para esconder a sua tristeza.

Agora, mais calmo, ele pensou em como ela sofria sempre ao pensar em ser humana de novo. E tocou em seu ombro.

-Você pode se alimentar de mim sempre que precisar.

Alice virou para olhar o humano que a tinha conquistado completamente.

-Eu não posso arriscar me descontrolar um dia e te perder. Seria demais pra mim.

Eles então se abraçaram com carinho.

-Rafael, esse sentimento de posse não nos faz bem. Eu não sou uma humana, por quê essas regras hipócritas se aplicariam então? Fazer coisas sem você saber, coisas que eu sei que você não aprovaria. Mentir. Por que ficaríamos juntos se não para dividir a nossa verdade, quem somos?

Alice respirou, se afastou um pouco e olhou para Rafael nos olhos.

-Você pode ter a mulher que quiser e ser amado por todas elas, então, por que eu, se não para amar quem eu sou de verdade?

Rafael ficou observando Alice. Ela era a mulher mais bela que já tinha visto, mas não pela aparência física apenas, mas algo em seus olhos. Algo que nunca tinha visto antes. Isso era a coisa mais bonita nela.

A forma com que ela o fazia sentir inteiro, completo quando estava por perto e, principalmente, como se sentia ele mesmo nesses momentos.

A verdade nos olhos de Alice era o que a fazia a mulher mais bonita do mundo para Rafael.

-Você tem razão. Eu não quero nada menos que a verdade, Alice. Mas eu sou humano e tenho meus defeitos também.

-Eu sei que sim e te amo por tudo isso.

-Então nós vamos encontrar uma forma de resolver isso, juntos.

Eles fecharam os olhos e ficaram assim, abraçados, por um bom tempo.

Eram quatro horas da manhã e Alice estava se preparando para ir embora.

-Não vai.

-Mas… já falamos sobre isso. Quando eu fico aqui você fica o dia inteiro preso, trancado dentro do quarto.

-Tudo bem. Eu tô vivendo de noite já.

-E você sabe que está anêmico por causa disso. Ficou doente por não ver o sol direito!

Alice continuava se arrumando.

-Quer se casar comigo?

A vampira estava calçando o sapato quando parou e olhou bem para o seu amado.

-Ora, nos amamos, não é verdade? Queremos ficar juntos. Por que não?

Alice pulou em cima de Rafael.

-Claro que eu quero, mas como…

-Eu quero te pedir uma coisa. Quero ser um vampiro como você.

Alice olhou de canto para ele. Por um segundo pensou que tudo aquilo poderia ser apenas um desejo de poder, de imortalidade. E se afastou de leve.

-Por que você quer isso?

-Não está claro?

-Quero que me responda mesmo assim.

Rafael sabia que aquele era um momento crucial. Quem em sã consciência abriria mão de sua alma?

-Encoste no meu peito, Alice.

Ele pegou a mão gélida dela e encostou no seu tórax.

-Peça para que meu coração pare de bater.

Ela tirou a mão rapidamente.

-Que brincadeira é essa?

Por que tem medo de fazer essa brincadeira? Por que tem medo de pedir uma coisa absurda?

-Eu não sei.

-Pois eu sei. Você entende, assim como eu, que eu seria capaz de tudo para ficar do seu lado. Você entende que eu seria capaz de parar meu coração se esse fosse o seu desejo. A morte, meu grande amor, não é mais que todos os momentos em que estou longe de você.

Ela sabia que seriam muito felizes juntos, sabia que desejava estar com ele da mesma forma e sabia que nem mesmo aquela pequena morte os poderia separar.

Eles estariam juntos e nada poderia separá-los agora.

comentários
  1. Rosana disse:

    Caminhantes Noturnos, comecei a ler sem querer parar. Quem não gosta da noite? Eu adoro! E numa noite de lua cheia tudo pode acontecer…

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